segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Rosas Secas


    O quarto estava em absoluto silêncio e o único barulho que preenchia o cômodo era o aparelho que media os batimentos cardíacos da garota. Um barulho intenso e estridente. Havia uma cama, uma poltrona desocupada e um aparelho de televisão.
    Ao abrir os olhos, levou pelo menos um minuto para que a visão se acostumasse com o branco do quarto e com a claridade que entrava por entre as persianas da janela. Esfregou os olhos algumas vezes; estava cansada, muito cansada. Embora não fizesse nada além de permanecer deitada naquela cama o dia todo, desde os últimos trinta dias, ela se sentia exausta. Mas exausta mesmo ela se sentia por dentro, e isso já vinha de longa data. Desde que descobrira a doença que tinha, e ainda mais quando percebeu estar morrendo aos poucos, a cada dia mais, jogada naquela cama de hospital. Já nem se lembrava mais como era estar em casa, como era acordar com o despertador tocando para ir à aula e, embora reclamasse demais, hoje sentia falta de ter uma vida normal. Mas o que mais sentia falta era do seu amor. Todos os dias ele ia vê-la e levava de presente um botão de rosa -sou obrigada a dizer que já havia dúzias delas no quarto-. Saía da aula no final da tarde e ficava ao lado dela até que adormecesse, e só então ia embora. Mas não era, nem de longe, como quando ela ainda podia viver.  Lembrava de cada mínimo detalhe de desde quando se conheceram, até a última visita que ele fizera a ela, na noite passada. Sentia saudade de todos os domingos de tédio, que só não se tornavam mais entediantes porque sempre tinha sua companhia. Dos sábados a noite, que às vezes eram quietos, outras vezes agitados. E posso fazer uma observação? As briguinhas bobas sempre aconteciam de sábado a noite. A garota nunca soube o porquê, mas sempre que brigavam era de sábado a noite.
    Acabou deixando um riso escapar pelo canto da boca ao lembrar. Sentia falta das brigas também. Espera que eu diga que as brigas daquele casal eram daquelas que começavam nas implicâncias, passavam pelos gritos e depois terminavam no beijo mais apaixonado? Não, as brigas deles começavam nos gritos e terminavam na maior gama de palavrões imagináveis. Mas pergunte se essas discussõezinhas duravam mais de dois dias? No final, chegavam pedidos de desculpas via sms.
    Ele adorava fazer surpresas, assim como ela amava ser surpreendida. Algumas delas não deram certo, afinal, gostar de fazer surpresas não quer dizer que ele as soubesse fazer direito. Ela não era boba nem nada e vez ou outra descobria,  mas tenho que dizer que era bem mais gostoso. Esquisito, não? Pois é, eles eram esquisitos. Mas eram felizes, e isso qualquer um podia ver. E eles se amavam.
    Voltando à realidade, sentiu-se novamente. Embora os médicos evitassem falar dos poucos dias que lhe restava, ela sabia que já não lhe sobrara muito. Embora quisesse poder voltar à vida, sabia que se partisse naquele instante, partiria bem. Não feliz, mas bem. Tinha boas lembranças da vida.
   Hoje a garota acordara sentindo que tinha menos tempo ainda. Virou a cabeça para o lado, não viu ninguém. Esticou o braço até que pudesse alcançar a gaveta do criado-mudo branco. Tirou dali um pedaço de papel e uma caneta. Mal conseguia segurá-la, e o "eu te amo" saiu com letras tremidas. Pousou o bilhete ao lado do vaso com os botões de rosa, que também se encontravam na mesinha de cabeceira. De repente, sentiu um cansaço enorme e um sono incontrolável.
     Dizem que a gente sempre sabe quando chegou a hora, e ela costatou isso quando fechou os olhos para dormir e nunca mais acordou.

Beijos e me liga para contar das vezes em que você viu a vida passar pelos olhos como um filme :*

PS: Ultimamente anda sendo muito difícil escrever... inspiração 0. Tenho dado um intervalo maior do que gostaria entre uma postagem e outra (inclusive ouvi cobranças a respeito, né Renan? Eu sei que você está lendo isso, amor.) mas realmente está sendo difícil escrever.
PS2: Poréééém, hoje sentei determinada a produzir algo e o resultando me rendeu uma sensação que há muito não sentia ao escrever. Gostei muito de ter feito este texto, e peço desculpas pelo tamanho; mas quando a inspiração vem, o negócio é aproveitar.
PS3: Mais alguns itens cumpridos na Wish List!
PS4: Comente, deixe sua marquinha aqui ;)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Até logo...



      O espelho a encarava. Refletia um rosto calmo, delicado, uma pele clara e lábios levemente rosados. As cortinas da janela de madeira balançavam de forma que anunciasse a manhã fresca que estava por vir; e a harmonia da brisa, junto dos poucos raios de sol que conseguiam atravessar as nuvens, era quase a mesma harmonia que se instalava dentro da garota. Há muito não se sentira tão bem.
      Passou a escova por entre os cabelos dourados e amarrou os delicados cachos com uma fita de cetim branca. Passou a palma das mãos pela caixinha de jóias, encapada por um veludo vermelho, e tirou a poeira que ali repousava. Abriu-a e, deixando escapar uma doce e lenta música dali de dentro, passeou a ponta dos dedos pelos cantos da caixa, como quem acariciasse algo. Pescou o brinco que mais adorava: uma pequena estrela dourada. Colocou-os e em seguida puxou uma correntinha, cujo pingente era um relicário. Ali dentro descansava uma foto, e carregar aquela corrente junto do peito toda vez em que saía era uma forma de manter perto dela quem estava longe.
      Voltou a olhar-se no espelho. Ajeitou o vestido, deu uma leve borrifada de perfume em cada lado do pescoço, e em seguida sentou-se à beira da cama. Estava pronta. Prontinha. Só faltava acreditar que finalmente o momento chegara. Custou a entender que poucos minutos era o que a distanciava do abraço que desejara desde o último longo semestre.
      Já te disseram que a saudade é capaz de torturar as pessoas? E se você acha que existe sentimento pior do que a saudade de quem não se pode ter ao lado sempre, sinto lhe dizer, mas você está redondamente enganado. Só quem sente é que sabe.
      A garota do vestido longo, de tecido fino e flores levemente desbotadas levantou-se, deu uma breve olhada no espelho e sorriu com o resultado que ali se refletia. Ela estava em paz. Por mais íncrivel que isso possa parecer, ela estava plenamente em paz.
     Apanhou a bolsa e saiu porta a fora, saltitando por dentro e exalando alegria.
     No final do dia, quando o sol se escondeu e permitiu que aquelas duas pessoas sentadas a beira do lago fossem iluminadas pela luz da Lua, ela sentiu-se da mesma forma que havia se sentido na última vez em que vira quem tanto amava. E, novamente, concluiu: a despedida é a pior parte de um reencontro.

Beijos e me liga pra contar do teu reencontro :*

PS1: Acho que não tenho muito o que dizer depois deste conto...
PS2: Ando estado tão ausente do blog que até me sinto envergonhada... só tenho que pedir desculpas :(
PS3: Comente, deixe sua marquinha aqui ;)