quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Estilhaços



    Ando sobrevivendo. Sobrevivendo aos dias que custam a passar, sobrevivendo aos meses que me jogam na cara quanto tempo falta ainda para um possível recomeço. Uma possível vida nova, com um possível sonho realizado e uma possível felicidade. Ando sobrevivendo às dificuldades, me rastejando enquanto o tempo passa. Vou levando enquanto der. Enquanto eu aguentar.
    Ando caminhando pelas águas frias, me arrastando pelos ventos fortes e empurrando com o corpo o peso que é suportar as situações. Ora ou outra a cabeça lateja e anuncia que os pensamentos precisam dar uma trégua à minha vaga mente. Mas ao deitar, o travesseiro se parece tão duro quanto acordar e ver que tudo ainda continua no mesmo lugar. Que as coisas continuam da mesma forma e, pior ainda, que parecem não serem capazes de mudar nunca.
    Vazio. Um vaso vazio ecoa muito mais som do que um vaso cheio.
    Muita coisa ecoa em mim. Ao passo que minha mente não sossega, as noites em claro insistem em abrir as portas para pensamentos que telintam como um talher batendo em uma taça de cristal.
    Seria as pessoas capazes de mudar? Ilusório. Ilusão. Iludida.

  Beijos e me liga para contar da sua ilusão :*

PS: Não me perguntem o que me aconteceu para que esse texto seja escrito, porque eu também estou me questionando isso. Sem motivo algum, sem noção alguma e intenção nenhuma este texto saiu... Assim do nada. E por um segundo chego a reler, pela trilhonésima vez, e notar que talvez nada aí faça sentido. Talvez seja meu inconsciente querendo dizer alguma coisa...
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alto mar


    Com a subida do nível do mar, aquela ilha estava comprometida. Muito em breve seria inundada e nada mais restaria ali. Vaidade. Riqueza. Alegria. Tristeza. Todos apressados em juntar suas coisas, colocarem em seus respectivos barcos e se distanciarem o quanto antes, enquanto a água tratava de subir. Mas o Amor, o único ali que não tinha como fugir, começara a entrar em desespero. Nenhum barco restara e, quase afogando-se, gritou para a Riqueza que passava com seu barco ao lado:
- Riqueza, toda preciosa, por favor, leve-me contigo...
- Não posso, Amor. Meu barco está cheio de ouro e prata e nada de você caberá aqui.
    Assim que a Riqueza passa navegando, a água lentamente traz o barco da Senhorita Vaidade.
- Vaidade, ajude-me e leve-me junto de ti...
- Argh. Não posso, você sujará meu barco.
    A água subia ao passo que o desespero do Amor aumentava. De repente, velejando passa o barco da Tristeza.
- Tristeza, suplico-lhe que me ajude... Estou me afogando... Deixe-me ir contigo?
- Ah, Amor... Estou tão triste que prefiro seguir sozinha, serias uma péssima companhia.
    A Alegria passa cantarolando alegremente em seu barco e nem se incomoda com os gritos estridentes de socorro do sentimento que ali se afogava.
- Alguém me ajude, por favor! Alguém me ajude...
    Como que num milagre, surge saindo da ilha um barco navegando pra perto do Amor.
- Não chore, Amor... Suba e te levarei comigo.
- Muito obrigado senhor. Por um instante cheguei a pensar que morreria ali.
- Estás a salvo agora, nobre sentimento.
- Qual seu nome, senhor? - disse o Amor.
- Eu sou o Tempo, meu caro.
- E porque o senhor, somente o senhor, resolvestes me salvar?
- Porque somente o tempo é capaz de ajudar e entender um grande amor.

Beijos e me liga para contar do sentimentos que você já deixou se afogando :*

PS: Essa é uma das cenas da peça que estamos ensaiando na aula de teatro. Fiz algumas modificações. adaptei-a e completei com algumas coisas.
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domingo, 2 de outubro de 2011

l'enfance


    Outubro. Esta é época em que as temperaturas altas e os americanos deitados debaixo de árvores no Central Park dão lugar às folhas secas e, ora marrons ora avermelhadas, caídas pelas calçadas. Os fins de tarde com muito vento anunciavam que dentro de três meses já seria Natal. Os casacos já começavam a serem tirados do guarda-roupas e a paisagem começara a mudar.
     Caminhava pela cidade já havia pelo menos uma hora. Presenciei de tudo: desde o casal discutindo dentro do carro em meio ao trânsito até a criança que estava dentro do carrinho, observando curiosamente um pássaro que alimentava seu filhote dentro do ninho, no topo da árvore.
    Mas foi quando, passando pela calçada do Lincoln Center, ouço um toque ritmado de piano. Doce, lento, delicado. Demorei alguns segundos para perceber que a música vinha do prédio, onde ficava o New York City Ballet. Famosa pelas mais impecáveis apresentações e pelos mais disciplinados bailarinos, a companhia de ballet me fascinava desde quando me entendia por gente.
    Entrei e caminhei até chegar onde estavam acontecendo os ensaios. Não pude deixar de notar que era o horário das crianças. Não chegavam a um metro de altura, garotinhas brilhantemente vestidas com as roupas do espetáculo, e mais se pareciam bonecas. A música era tocada por um piano de longa cauda, localizado no fundo do lado esquerdo do palco. Recostei no batente e me permiti observar a dança.
     De repente meu corpo parou. Minha mente se desligou instantaneamente quando a música principal de O Quebra Nozes começou a ser tocada. Senti uma onda me invadir. Poderia ficar o resto da vida tentando explicar o que senti, mas nada chegaria perto do real. E foi então que me vi lembrando de quando eu era mais próxima das sapatilhas, dos collants, do palco, do piano. Não devia ter mais do que quatro anos. O Quebra Nozes foi meu primeiro, e último, espetáculo.
    Porém, o que mais me chamara a atenção foi uma das bailarinas. Loira, coque preso no alto da cabeça, branca como algodão, um pouco menor que o restante da turma. Olhos azuis. Senti como se me visse ali, naquela garota, há pelo menos uns vinte anos atrás. Vendo-a ali, naquele figurino bordado em pedras e com um tule quase maior que a menina, me lembrei de uma fotografia. Eu, o mesmo figurino e mamãe, depois do espetáculo. Saudade.
    Alguns pais começaram a passar por mim e irem em direção ao palco. Olhei para o relógio e vi quanto tempo já havia passado, a aula chegara ao final. Vi quase todas as crianças saírem de mãos dadas com seus respectivos pais. A garotinha loira, dona dos olhos azuis, passou por mim e, talvez por ter percebido meu sorriso enquanto vinha, soltou um doce e inocente:
- Olá, moça bonita.

Beijos e me liga para contar do seu tempo de garotinha bailarina :*

PS: Texto totalmente fictício. Nunca tive habilidade nenhuma para a dança... Sempre achei a coisa mais maravilhosa do mundo ballet clássico, mas infelizmente não levo jeito pra coisa.
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